Benfica

Benfica: pequeno entre os pequenos e mais distante de ser grande entre os,

Lage foi mais Mourinho do que o próprio e não é um elogio. O benfiquista continua a desperdiçar nova oportunidade num gigante, sem reconhecer as fragilidades do seu modelo

Se és pequeno diante dos pequenos como serás grande entre os maiores? Não quero, de todo, ofender as gentes do Fenerbahçe, que inserido no contexto turco é, obviamente, gigante. No entanto, teremos todos de concordar que a sua dimensão internacional é inexistente — aí o Galatasaray é o único que pode reclamar algum estatuto, com a conquista de uma Taça UEFA e uma Supertaça Europeia. Resumindo, os canários amarelos chegaram às meias-finais da Liga Europa em 2012/13, em que foram eliminados pelo Benfica, e apresentam a presença em três quartos de final: Taça das Taças, 1963/64, derrotados pelo MTK; Liga dos Campeões, 2007/08, afastados pelo Chelsea; e Liga Conferência, 2023/24, excluídos pelo Olympiakos.

Depois disto, será ou mais ou menos consensual assumir que o Fenerbahçe não é um Real, um Barcelona, um Liverpool, um Bayern e por aí fora. E, como tal, para efeitos deste texto, vamos considerá-lo menor. Mesmo treinado por José Mourinho.

Por isso, repito: Se és pequeno diante dos pequenos como serás algum dia grande entre os grandes? E acrescento já outra: em que mundo é que apostar tudo num jogo de uma eliminatória a duas mãos aumenta probabilidades de sucesso? Sobretudo se nesse jogo, o adversário puder assumir o papel mais confortável de não-favorito, fechar-se atrás e saltar em transição, como o seu treinador passou a preferir a partir de certa altura da carreira.

Claro que pode correr bem. Não quero ser arauto da desgraça e espero que sim. Que o plano dê certo. No entanto, o risco aumentou ao não se querer correr riscos. Parece um paradoxo, todavia, acredito que seja a mais pura das realidades.

Bruno Lage, mais uma vez, preocupou-se tanto em anular o adversário, que tem obviamente pontos fortes, que se anulou a si próprio. Em Istambul, o Benfica praticamente não existiu no ataque. Por um lado, fez com que Mourinho provasse do próprio veneno, ao ponto de não poder fazer a habitual vitimização e ter de admitir: «Afinal, quem sou eu para falar quando joguei com dez defesas em Barcelona.» Por outro, ao fazer com a eliminatória se jogue em apenas 90 ou 120 minutos, numa contagem decrescente acelerada, reduziu a margem para recuperar de erros diante de quem passou metade da carreira (a pior parte) a tentar capitalizá-los.

Lage disse aqui há dias que sabia muito bem que futebol os adeptos queriam ver. Tenho dúvidas que seja este. Tenho ainda mais que se caminhe para algo de diferente, em termos de processo, mesmo que a equipa venha a mostrar-se mais fluida. Será que é este futebol que quer Rui Costa, o mesmo Rui Costa que renovou com Roger Schmidt fora de tempo porque chegara à conclusão que era aquele estilo de vertigem e energético que queria ver na sua equipa? Um futebol bem diferente deste.

Claro que na Luz o mais importante é vencer, mas os meios também contam, não só os fins. No Benfica joga-se ao ataque, para ganhar. Esta talvez seja a formulação mais acertada. Ainda que se tenham festejado tanto os títulos de Jesus como o de Trapattoni, não serão recordados da mesma forma

O atual técnico é mais um condutor de autocarros, que tenta manobrar seguro, mas que não ultrapassa uma determinada velocidade, do que um carro de corridas, de um Ferrari, como dizia o outro, quando falava de um terceiro, que acusava de não ter unhas para conduzi-lo. Na recente entrevista de Luís Filipe Vieira, o ex-presidente, no meio de tanta palavra desnecessária, disse algo acertado: Lage mudou. A certa altura da carreira traiu-se a si próprio. Este não é o mesmo que foi campeão na estreia.

No plano para Istambul, percebeu-se que faltava metade do campo. Para os livros, fica que Bruno Lage abordou o encontro em 4x3x3, mas se olharmos para o 11 escolhido antevia-se que a equipa iria criar pouco no momento ofensivo. Florentino posicionava-se a 6, para libertar Enzo e Ríos, mas o argentino não é um jogador de transporte e sim de ligação e passe, e o colombiano ainda sente dificuldades em encaixar no ritmo europeu. É aquele a quem mais se exige e quem mais tem de percorrer até encontrar o seu patamar ideal. Com um Aursnes extraordinário, mas sem explosão, na direita, Pavlidis era obrigado a recuar para ligar e as águias ficavam muito dependentes de Akturkoglu na exploração do espaço nas costas na defesa. A questão é que o golo foi encarado apenas como bónus, o objetivo era o 0-0.

É óbvio que o apuramento para a Liga dos Campeões é fundamental, económica e desportivamente. Politicamente, também o é e muito para Rui Costa. Só há um candidato em cujo programa estão os resultados da equipa até outubro e esse é o do ex-jogador. Os outros, não querendo torcer contra, sabem que, a serem positivos, serão trunfo de ouro para quem querem destronar.

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